Dr. Leandro Becker

Resistência Insulínica Precoce e Aterosclerose Subclínica em Normoglicêmicos

Referência:  Iglesies-Grau et al.,  Cardiovascular Diabetology  (2023).

Endereço pubmed: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38115031/

Objetivo do Estudo

O estudo investigou a associação entre a resistência insulínica precoce — mensurada pelo índice HOMA-IR ( Homeostatic Model Assessment of Insulin Resistance ) — e a presença, carga e extensão da aterosclerose subclínica (AS) em indivíduos normoglicêmicos. A análise focou em uma lacuna crítica da cardiologia preventiva: a identificação de risco vascular em pacientes com hemoglobina glicada (HbA1c) considerada normal (< 6,0%) e sem doença cardiovascular (DCV) estabelecida. 

Utilizando dados da coorte PESA ( Progression of Early Subclinical Atherosclerosis ), o estudo avaliou 3.741 participantes de meia-idade com um risco mediano de eventos cardiovasculares em 10 anos (SCORE2) de apenas 2,0%, reforçando o perfil de “baixo risco” da amostra.

Achados Encontrados

Os resultados demonstram que o HOMA-IR atua como um biomarcador metabólico sensível, correlacionando-se com o fenótipo vascular mesmo antes de alterações na glicemia de jejum ou HbA1c:

  • Perfil Metabólico e Independência da HbA1c:  Valores elevados de HOMA-IR correlacionaram-se positivamente com hipertensão, dislipidemia e síndrome metabólica . Notavelmente, observou-se uma correlação fraca entre HbA1c e HOMA-IR (rho de Spearman = 0,14), o que estatisticamente justifica o valor incremental do HOMA-IR como marcador independente. Além disso, houve associação significativa com a esteatose hepática não alcoólica (NAFLD), caracterizada por marcadores sorológicos (ALT/AST) e gordura intra-hepática predita ≥ 5%.
  • Extensão da Aterosclerose e Predomínio Coronário:  O HOMA-IR apresentou associação direta com a extensão multiterritorial da aterosclerose subclínica e com o volume de placa global via ultrassom vascular 3D (p < 0,001). A relação foi particularmente impactante no território coronário: a prevalência de escore de cálcio coronário (CACS) > 0 saltou de 14,9% no grupo de referência (HOMA-IR < 2) para 39,3% no grupo com HOMA-IR ≥ 3. Em um subgrupo com HOMA-IR ≥ 4, a prevalência de CACS > 0 atingiu 49%.
  • Estratificação de Risco (SCORE2):  A associação entre HOMA-IR e carga de aterosclerose subclínica foi significativa nos indivíduos de risco baixo a moderado (75,6% da coorte). Entretanto, não foi observada associação independente no grupo de alto risco. Esta divergência sugere que, em pacientes de alto risco, os fatores de risco tradicionais dominam o cenário clínico, ou que o estudo possuía poder estatístico limitado ( underpowered ) para este subgrupo específico.

Conclusão:

A resistência insulínica precoce — definida fisiologicamente como a necessidade progressiva e lenta de níveis mais elevados de insulina em jejum para manter concentrações normais de glicose — precede em anos ou décadas a elevação da HbA1c. O índice HOMA-IR é uma ferramenta simples e de baixo custo que identifica a “fase compensatória inicial” da disfunção metabólica. Na prática clínica, sua mensuração permite capturar indivíduos classificados como de baixo risco pelo SCORE2 que já apresentam uma carga elevada de aterosclerose subclínica. Esse achado oferece uma janela de oportunidade crucial para a implementação precoce de estratégias de prevenção primária e intervenções intensivas no estilo de vida, muito antes do surgimento de eventos clínicos ou da progressão para o espectro do diabetes tipo 2. 

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