Obesidade, Status de Saúde Metabólica e Desfechos Adversos: Uma Análise de Coorte do UK Biobank
Obesity, metabolic health status, and adverse outcomes in men and women
American Journal of Preventive Cardiology
Available online 14 March 2026, 101556
Este documento sintetiza os achados de um estudo de coorte prospectivo de larga escala, publicado no American Journal of Preventive Cardiology, que investiga as associações independentes e conjuntas da obesidade e do status de saúde metabólica com desfechos cardiometabólicos em homens e mulheres.
Visão Geral e Objetivos
O estudo aborda o fenótipo da “obesidade metabolicamente saudável” (MHO), que afeta aproximadamente um terço dos indivíduos com obesidade globalmente (cerca de 300 milhões de pessoas). O objetivo central foi determinar se a obesidade, na ausência de anormalidades metabólicas clínicas, é um estado benigno ou se confere riscos aumentados para doenças cardiovasculares, renais e hepáticas, além de mortalidade por todas as causas.
Metodologia
O estudo utilizou dados de 157.159 participantes do UK Biobank, acompanhados por uma mediana de 12,9 anos (totalizando mais de 1,9 milhão de pessoas-ano).
- Critérios de Inclusão: Participantes sem doenças cardiovasculares pré-existentes.
- Definição de Obesidade: IMC \ge 30,0 kg/m².
- Saúde Metabólica: Definida como a ausência de hipertensão, dislipidemia ou diabetes. A presença uma dessas condições classificou o indivíduo como “metabolicamente não saudável”.
- Desfechos Avaliados:
- Doença Cardiovascular Aterosclerótica (ASCVD).
- Insuficiência Cardíaca (HF).
- Doença Hepática Esteatótica Associada à Disfunção Metabólica (MASLD).
- Doença Renal em Estágio Terminal (ESRD).
- Mortalidade por todas as causas.
Resultados Principais: O Mito da Obesidade “Saudável”
Os dados demonstram de forma inequívoca que a obesidade, mesmo sem anormalidades metabólicas iniciais, não é uma condição benigna. Ela representa, provavelmente, um estado de transição para o desenvolvimento de comorbidades.
Riscos Associados à Obesidade Metabolicamente Saudável (MHO)
Em comparação com indivíduos de peso normal e metabolicamente saudáveis (grupo de referência), os indivíduos MHO apresentaram riscos significativamente elevados em quase todas as categorias, ajustados para variáveis como idade, tabagismo e status socioeconômico:
| Desfecho | Razão de Risco (HR) – Homens | Razão de Risco (HR) – Mulheres |
| ASCVD | 1,46 (IC 95%: 1,24-1,73) | 1,34 (IC 95%: 1,14-1,58) |
| Insuficiência Cardíaca (HF) | 1,63 (IC 95%: 1,14-2,32) | 1,69 (IC 95%: 1,21-2,37) |
| MASLD | 2,37 (IC 95%: 1,22-4,61) | 4,44 (IC 95%: 3,00-6,59) |
| Mortalidade Geral | 1,36 (IC 95%: 1,10-1,69) | 1,27 (IC 95%: 1,05-1,52) |
Nota: O risco para ESRD em indivíduos MHO não atingiu significância estatística isolada, mas aumentou drasticamente na presença de disfunção metabólica.
O Impacto da Disfunção Metabólica Adicional
Quando a obesidade coexiste com anormalidades metabólicas, os riscos são exacerbados de forma gradativa. O estudo observou um “gradiente de risco” proporcional ao número de anormalidades presentes. Para indivíduos obesos com 3 anormalidades metabólicas, os riscos em comparação ao grupo saudável de peso normal foram:
- ASCVD: HR 3,33 (Homens) / 4,44 (Mulheres).
- Insuficiência Cardíaca: HR 4,68 (Homens) / 7,32 (Mulheres).
- MASLD: HR 12,35 (Homens) / 18,09 (Mulheres).
- ESRD: HR 15,45 (Homens) / 31,74 (Mulheres).
Diferenças Relativas ao Sexo e Obesidade Central
O estudo identificou que o impacto da obesidade e da saúde metabólica varia conforme o sexo:
- Vulnerabilidade Feminina: As mulheres com obesidade parecem sofrer um prejuízo relativo maior em comparação aos homens para desfechos como MASLD e Insuficiência Cardíaca. O efeito multiplicativo da obesidade e anormalidades metabólicas foi mais pronunciado no sexo feminino.
- Obesidade Central: A circunferência da cintura ( 102 cm para homens e 88 cm para mulheres) forneceu informação prognóstica incremental. Mesmo dentro de uma categoria de IMC “normal”, a presença de obesidade central foi associada a riscos cardiometabólicos aumentados.
Considerações Clínicas
- Prevenção Primária: O tratamento da obesidade deve ser iniciado precocemente, antes que as anormalidades metabólicas se manifestem. Esperar pelo surgimento de diabetes ou hipertensão para intervir aumenta drasticamente a trajetória de risco do paciente.
- Avaliação Além do IMC: A medição da circunferência da cintura e a avaliação do status metabólico são essenciais para uma estratificação de risco precisa. Indivíduos com IMC normal, mas com obesidade central ou disfunção metabólica, apresentam riscos comparáveis aos de indivíduos com sobrepeso.
- Natureza Transitória: A saúde metabólica na obesidade é frequentemente temporária. Com o tempo, a maioria dos indivíduos com MHO progride para um status metabolicamente não saudável, acelerando o desenvolvimento de danos em órgãos-alvo (fígado, rins e coração).
Conclusão
Os achados deste estudo refutam a ideia de que a obesidade pode ser “saudável”. Embora o risco seja menor na ausência de anormalidades metabólicas do que na presença delas, ele ainda é significativamente superior ao de indivíduos com peso normal. A intervenção na obesidade deve ser priorizada como uma estratégia fundamental para mitigar o risco de doenças crônicas e mortalidade prematura, independentemente do status metabólico atual do paciente.
Dr. Leandro Quintana Becker é cardiologista e ecocardiografista, com mais de 15 anos de atuação clínica, dedicado principalmente à cardioprevenção, metabolismo e longevidade saudável.