Dr. Leandro Becker

Fatores Associados à PCR us elevada na Doença Cardiovascular Aterosclerótica

Endereço Pumed: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41029969/

Este documento sintetiza as principais descobertas de um estudo transversal que analisou os fatores associados a níveis elevados de proteína C-reativa de alta sensibilidade (PCR-us ≥2 mg/L) em adultos com doença cardiovascular aterosclerótica (DCVA) estabelecida, utilizando dados de dois grandes estudos populacionais: o UK Biobank (Reino Unido) e o NHANES (EUA).

Visão Geral

A inflamação sistêmica, medida pela PCR-us, é um marcador crítico de risco cardiovascular residual.

Este estudo identificou que, em pacientes com DCVA, a PCR-us elevada está fortemente associada a fatores de risco modificáveis e características demográficas específicas.

Os principais pontos de destaque incluem:

  • Prevalência: A PCR-us elevada (≥2 mg/L) foi observada em 40,9% dos participantes do UK Biobank e 54,7% do NHANES.
  • Fatores de Risco Consistentes: Obesidade, sobrepeso, tabagismo atual, sexo feminino, níveis elevados de colesterol LDL (LDL-C) e triglicerídeos foram consistentemente associados a maiores chances de PCR-us elevada em ambos os grupos.
  • Efeito Protetor: O uso de estatinas foi o único fator associado a menores chances de apresentar PCR-us elevada.
  • Efeito Cumulativo: Existe uma relação direta e proporcional entre o número de fatores de risco presentes e o aumento tanto dos níveis medianos de PCR-us quanto da proporção de indivíduos com inflamação sistêmica.
  • Implicação Clínica: A PCR-us funciona como um “barômetro global” do risco individual. A identificação desses fatores permite que clínicos selecionem melhor os pacientes para testes e priorizem intervenções terapêuticas e de estilo de vida.

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Metodologia e Coortes de Estudo

A análise baseou-se em dados contemporâneos de duas coortes distintas:

  1. UK Biobank: Incluiu 23.045 indivíduos (idades entre 40-69 anos) com DCVA (doença coronariana, doença vascular periférica ou cerebrovascular). A coorte era predominantemente branca (94,4%) e menos diversificada que a americana
  2. NHANES (National Health and Nutrition Examination Survey): Incluiu 3.415 indivíduos (≥20 anos) com DCVA autorreferida. Esta coorte foi mais diversa (76,7% brancos) e ligeiramente mais velha (média de 67 anos vs. 63 anos no UK Biobank).

Em ambos os estudos, a PCR-us elevada foi definida como ≥2 mg/L.

Indivíduos com PCR-us >10 mg/L foram excluídos para evitar a interferência de infecções agudas ou doenças inflamatórias ativas.

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Fatores Associados à PCR-us Elevada

Os seguintes fatores apresentaram associações estatisticamente significativas (P<0,05) tanto no Reino Unido quanto nos EUA:

Fator

Razão de Chances (OR) – UK Biobank

Razão de Chances (OR) – NHANES

Obesidade

3,48

4,11

Sobrepeso

1,56

2,26

Tabagismo Atual

2,47

1,96

Sexo Feminino

1,69

1,69

Uso de Estatinas

0,69 (Redução de risco)

0,54 (Redução de risco)

Níveis de LDL-C

1,05 (por cada 10 mg/dL)

1,00

Triglicerídeos

1,01 (por cada 10 mg/dL)

1,00

 

Outros Fatores Relevantes

No UK Biobank, fatores adicionais foram significativos devido ao maior tamanho da amostra, enquanto no NHANES eles apresentaram tendências numericamente semelhantes:

  • Idade: Aumento do risco a cada 10 anos (OR 1,08).
  • Doença Renal Crônica (DRC): Estágios G4-G5 apresentaram as maiores chances de PCR-us elevada (OR 4,17).
  • Comorbidades: Diabetes (OR 1,26), Insuficiência Cardíaca (OR 1,31) e Hipertensão (OR 1,27).

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Relação entre o Número de Fatores e Níveis de Inflamação

O estudo demonstra um impacto cumulativo claro dos fatores de risco sobre a inflamação:

  1. No UK Biobank, os níveis medianos de PCR-us saltaram de 0,62 mg/L (zero fatores) para 5,39 mg/L (sete fatores). Tendência idêntica foi vista no NHANES (0,56 mg/L para 6,99 mg/L).
  1. Proporção de Casos Elevados:
  • Indivíduos sem nenhum fator presente: Apenas 15% (UK) e 27% (NHANES) tinham PCR-us elevada.
  • Indivíduos com sete fatores presentes: 86% (UK) e 100% (NHANES) apresentaram PCR-us ≥2 mg/L.
  1. Fatores mais comuns: Mais de 65% dos indivíduos em ambas as coortes possuíam entre três e cinco fatores de risco simultâneos.

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Discussão e Implicações Clínicas

O Papel da Inflamação na DCVA

Embora o manejo de lipídios e estilo de vida seja a intervenção de primeira linha, muitos pacientes mantêm níveis elevados de PCR-us. O documento cita que ensaios clínicos como o CANTOS (canaquinumabe), COLCOT e LoDoCo2 (colquicina) demonstraram que a redução da inflamação sistêmica diminui significativamente o risco de eventos cardiovasculares recorrentes. Atualmente, o ensaio ZEUS avalia o ziltivekimabe para este mesmo fim em pacientes com DCVA e DRC.

Utilidade para a Prática Médica

Os resultados reforçam que a PCR-us é um indicador robusto do risco cardiovascular. Na ausência de testes universais de PCR-us, os médicos podem utilizar os fatores identificados (especialmente obesidade, tabagismo e DRC) para:

  • Identificar pacientes com maior probabilidade de inflamação residual.
  • Priorizar pacientes para testes laboratoriais específicos.
  • Direcionar intervenções de estilo de vida e considerar terapias farmacológicas anti-inflamatórias adicionais em pacientes de alto risco.

 

Conclusão dos Dados

A consistência dos achados entre duas populações geograficamente e demograficamente distintas (Reino Unido e EUA) sugere que esses fatores são altamente generalizáveis. A maioria dos fatores identificados é modificável, destacando a importância contínua do controle de peso, cessação do tabagismo e otimização da terapia com estatinas no manejo da DCVA.

 

Dr. Leandro Quintana Becker é cardiologista e ecocardiografista, com mais de 15 anos de atuação clínica, dedicado principalmente à cardioprevenção, metabolismo e longevidade saudável.

 

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