Endereço Pumed: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40605456/
Este documento sintetiza os achados de um estudo retrospectivo de coorte de larga escala, publicado no European Heart Journal (2025), que analisa a prevalência de fatores de risco, sintomas documentados e o uso de terapias preventivas em pacientes antes da ocorrência do primeiro infarto agudo do miocárdio (IAM).
Visão Geral do Estudo
O estudo investigou se a prática clínica atual, baseada em algoritmos de risco e na presença de sintomas, identifica e trata adequadamente indivíduos em risco de um evento coronariano primário. Os dados revelam lacunas críticas na identificação de pacientes e na implementação de terapias de prevenção primária.
Metodologia e População
- Fonte de Dados: Clarivate Real-World Data (EUA), integrando registros eletrônicos de saúde (EHR), reivindicações médicas e de farmácia de 98% dos planos de saúde governamentais e comerciais.
- População: 4.657.412 pacientes (≥18 anos) com o primeiro IAM documentado entre janeiro de 2017 e setembro de 2022.
- Idade Mediana: 70 anos (Intervalo Interquartil: 60–80).
- Composição de Sexo: 57,7% homens; 42,3% mulheres.
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Principais Achados: O Estado Pré-Infarto
A análise dos seis meses anteriores ao primeiro IAM demonstra que uma parcela significativa da população não apresenta o perfil clínico tradicionalmente esperado ou não está sob tratamento preventivo.
Prevalência de Fatores de Risco e Sintomas
O estudo utilizou o conceito de SMuRFs (Standard Modifiable Risk Factors), que inclui dislipidemia, hipertensão, tabagismo, história familiar de IAM, diabetes, obesidade e abuso de álcool.
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Categoria |
Percentual de Pacientes |
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Sem sintomas prévios documentados |
50,5% |
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Sem fatores de risco tradicionais (SMuRFs) |
18,0% |
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Sem visitas médicas prévias |
22,2% |
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Sem uso de qualquer terapia preventiva |
63,4% |
Fatores de Risco Modificáveis mais frequentes:
- Dislipidemia: 63,7%
- Diabetes Tipo 2: 41,5%
- Obesidade: 28,9%
- Hipertensão: 26,7%
Uso de Terapia Médica Preventiva
Apesar de 82% dos pacientes possuírem pelo menos um SMuRF documentado, a adesão medicamentosa foi baixa:
- Estatinas: Apenas 21,7% dos pacientes utilizavam antes do IAM.
- Betabloqueadores: 19,8%.
- Inibidores da ECA: 15,0%.
- Antiagregantes plaquetários: 9,6%.
- Inibidores da PCSK9: 0,2%.
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Diferenças Demográficas Estratificadas
Os dados revelam disparidades significativas na apresentação e no cuidado preventivo com base na idade e no sexo dos pacientes.
Impacto da Idade (≤60 anos vs. >60 anos)
Pacientes mais jovens (≤60 anos) apresentam um perfil de risco mais silencioso e menor engajamento médico:
- Sintomas: Menos propensos a ter sintomas documentados (41,5% vs. 52,2% em idosos).
- Fatores de Risco: Menor presença de SMuRFs documentados (75,9% vs. 84,1%).
- Visitas Médicas: Menor frequência de consultas ao clínico geral (65,8% vs. 79,8%).
- Tipo de IAM: Maior incidência de IAM com supradesnivelamento do segmento ST (STEMI) em jovens (42,5% vs. 32,6%).
Diferenças entre Sexos
- Homens: Menos propensos a ter sintomas documentados (44,9% vs. 55,7% em mulheres), visitam menos o médico, utilizam menos terapia preventiva e têm maior frequência de STEMI (37,9% vs. 31,4%).
- Mulheres: Tendem a sofrer o primeiro IAM aproximadamente 3 anos mais velhas que os homens (mediana de 73 vs. 68 anos). Elas apresentam maior prevalência de sintomas documentados e maior uso de terapia preventiva (39,8% vs. 34,2%).
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Implicações Clínicas e Lacunas na Prevenção
O estudo destaca uma falha na transição do diagnóstico de risco para a intervenção terapêutica. Mesmo entre os pacientes que visitaram médicos e tinham SMuRFs ou sintomas documentados, a maioria não estava em uso de medicação preventiva.
Desafios Identificados
- Limitação dos Algoritmos Atuais: Cerca de 18% dos pacientes (1 em cada 5) não seriam identificados por abordagens baseadas exclusivamente em fatores de risco tradicionais.
- Abordagem Reativa: O modelo atual de prática clínica é predominantemente baseado em sintomas, o que ignora os 50% de pacientes assintomáticos até o evento agudo.
- Subtratamento em Jovens: Pacientes jovens estão sendo submetidos a menos rastreamento e intervenção, apesar da gravidade dos eventos (maior taxa de STEMI).
Perspectivas Futuras para Cardiologia
Os autores sugerem que, para reduzir a carga global de doenças cardiovasculares ateroscleróticas (ASCVD), é necessário:
- Mudar o paradigma de uma abordagem baseada em sintomas para uma abordagem baseada na prevenção.
- Explorar ferramentas avançadas de estratificação, como:
- Marcadores de risco genético (escores de risco poligênico).
- Novos biomarcadores plasmáticos e Lipoproteína(a).
- Métodos de imagem para avaliar o fenótipo da doença aterosclerótica (Escore de Cálcio Coronário e Angiotomografia Computadorizada de Coronárias).
Conclusão
A análise de dados reais de mais de 4,6 milhões de pacientes evidencia uma necessidade urgente de melhorar as ferramentas de identificação e a captação de tratamento preventivo. A alta incidência de IAM em indivíduos sem sintomas prévios ou sem SMuRFs tradicionais reforça a insuficiência da prática clínica convencional em prevenir o primeiro evento coronariano.
Dr. Leandro Quintana Becker é cardiologista e ecocardiografista, com mais de 15 anos de atuação clínica, dedicado principalmente à cardioprevenção, metabolismo e longevidade saudável.